Com vinheta tendo ao fundo a música Admirável Gado Novo, do cantor Zé Ramalho, toda semana, os moradores do município paulista de , sabiam que começava um programa de feito de dentro do presídio feminino da cidade.

A forma de ultrapassar os muros que cercam o Presídio Feminino do município possibilitou novas perspectivas de vida para as detentas. O programa Povo Marcado funcionava assim: uma equipe, formada pelos coordenadores, cuidava da produção fora do presídio.

A outra era composta pelas próprias presas, e cuidava dos detalhes quando o programa ia entrar no ar. Ele era veiculado por duas rádios comunitárias locais e uma parceria com a Câmara dos Deputados garantia a distribuição para qualquer emissora do , por meio da Câmara.

Vitória se encarregava da apresentação. Ex-operadora de telemarketing, aos 23 anos, está presa há um ano e meio e participava do programa desde que chegou na prisão.

“Minha vida melhorou bastante. É até uma forma de a minha família ter mais contato comigo. Para as demais [detentas], também. Foi uma forma de melhorar a nossa auto-estima”, avalia.

Mas o programa Povo Marcado saiu do ar e, se vai voltar, ainda não se sabe. É que, em 14 de dezembro do ano passado, elas promoveram uma rebelião que durou pouco mais de 12 horas. As transmissões foram suspensas.

Elas pediam a transferência de presas, que superlotavam o local. Idealizada para abrigar apenas 48 , a cadeia tinha cerca de 215. Antes da rebelião, o secretário de do município, Werinton Kermes, que idealizou e coordenava o programa, explicou a situação do presídio feminino de .

“É uma diferença muito grande no número da capacidade e o de presas que ela [a cadeia] abriga. Isso causa muitos problemas para a cidade, por estar localizada no centro, e a gente, constantemente, assistia a rebeliões, queima de colchões, protestos de familiares. A secretaria de de começou a pensar de que forma ela poderia incluir ações culturais para que a vida dessas encarceradas pudesse se tornar algo pelo menos suportável”, contou.

A superlotação sempre foi um problema por ali e o programa, segundo o secretário de e as próprias presas, ajudava a evitar conflitos e até mesmo rebeliões, que são pouco comuns entre as detentas.

Suspenso e sem prazo para voltar ao ar, o programa Povo Marcado foi o canal para que as presidiárias pudessem expressar a realidade interna das penitenciárias femininas, a mesma constatada por levantamentos do Instituto de Defesa do de Defesa (IDDD), detalhados pela coordenadora do núcleo fixo da instituição, Luciana Zafalon.

“Hoje nenhuma espécie de é assegurado de forma hegemônica no sistema carcerário. No caso específico de visita íntima, para as , é um que é tratado como liberalidade, o que é inadmissível. A gente [ainda] tem um déficit muito grande de vagas de remunerado, e há que se esperar que o e a presa tenham condições de trabalhar”, cita.

O Pacto Nacional pelo Enfrentamento à Violência contra as é um projeto da Secretaria Especial de Políticas para as (SPM), que articula entre os ministérios a distribuição de R$ 1 bilhão de reais a serem gastos entre 2008 e 2011. Um dos pontos principais do pacto é a promoção dos das em situação de prisão. Em reunião da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Sistema Carcerário em dezembro do ano passado, a ministra da SPM, Nilcéa Freire explicou como deve ser a distribuição da verba.

“Eles [os recursos] serão investidos a partir da cooperação com os governos estaduais. Cada governo que adere ao pacto formula um projeto integral para o estado, de acordo com os governos municipais, e nós financiaremos”, disse a ministra, explicando que, para cada área contemplada pelo pacto, há uma forma diferente de repasses.

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