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Está em curso uma revolução nos estudos
sobre a obesidade. Mais importante do que
a quantidade de gordura é o modo como
ela se distribui pelo corpo. O objetivo agora
é eliminar aquela “barriguinha”, nociva
à estética e à

Nas últimas cinco décadas, o “peso ideal” foi um dos indicadores mais importantes de boa . O excesso puro e simples de tecido adiposo era tido como o vilão responsável por uma série de doenças – de infartos e derrames a apnéia do sono, de vários tipos de câncer a problemas na coluna.

Os estudos mais recentes, no entanto, mostram que a relação entre peso corporal e é bem mais complexa do que se supunha. Mais importante do que a quantidade de gordura é o modo como ela se distribui pelo organismo.

E não há gordura mais perniciosa do que aquela que se concentra no abdômen, a famosa barriguinha – “de chope”, no caso dos homens. No jargão médico, ela é conhecida como ou intra-abdominal. Os perigos oferecidos por ela decorrem de sua proximidade com órgão vitais como fígado, intestino, rins e pâncreas.

“O papel da gordura no organismo é um campo que a investiga há muito pouco tempo”, disse a VEJA o endocrinologista canadense Jean-Pierre Després, um dos principais pesquisadores de do . “Muitos aspectos importantes ainda estão por ser descobertos, mas os avanços até o momento já proporcionaram verdadeiras revoluções.”

A primeira delas não poderia ser mais evidente. Para avaliar os riscos associados à obesidade, a melhor ferramenta não é mais a balança, e sim a fita métrica.

A circunferência da cintura, afirmam agora os médicos, é o melhor parâmetro para avaliar os riscos impostos pelo acúmulo de células adiposas.

“Se todos os brasileiros tivessem a cintura na medida ideal, o número de infartos no país cairia 45%”, diz o cardiologista Álvaro Avezum, do Instituto de Cardiologia Dante Pazzanese, em . Quanto menor a medida, melhor – o que significa que a cinturinha de pilão deixou de ser apenas preocupação estética para se transformar em recomendação médica.

A outra revolução está prometida para meados do ano que vem, quando deve chegar ao mercado o medicamento rimonabant. A ser comercializado sob o nome de Acomplia, o novo remédio é o primeiro indicado para combater especificamente a .

Um de euforia antecede o seu lançamento – e ele é justificável. O rimonabant promete não só afinar a cintura como também proteger a cardiovascular, evitar o diabetes e combater a síndrome metabólica. A princípio, o rimonabant não será recomendado para toda e qualquer pessoa que deseja perder alguns centímetros de .

A prescrição será apenas para quem exibe obesidade abdominal e risco cardíaco. Entre os efeitos colaterais descritos até o momento estão náusea e ansiedade.

Algumas questões permanecem em aberto. Como o remédio interfere nos sistemas cerebrais de recompensa, ainda é cedo para descartar a possibilidade de ele piorar os sintomas da depressão ou de outros distúrbios psiquiátricos.

A maneira como a gordura se distribui pelo corpo começou a atrair a atenção dos pesquisadores na década de 40, quando o médico francês Jean Vague descreveu as duas silhuetas mais comuns – o perfil “pêra” e o “maçã”. Ele observou que, no primeiro caso, o depósito de gordura dava-se predominantemente na região dos quadris, coxas e nádegas.

Enquanto, no segundo, a gordura se situava preferencialmente em volta da . Sabe-se atualmente que as pessoas com corpo em forma de pêra acumulam mais gordura subcutânea e, por isso, teoricamente, correm menos risco.

Isso porque, localizada logo abaixo da pele, a gordura subcutânea não comprometeria tanto o funcionamento do fígado, dos rins ou do pâncreas. Já as pessoas-maçã estão sob ameaça muito maior, por nelas predominar a .

Evidentemente, para saber ao certo o perigo representado por essa gordura, é preciso relacioná-la a outros fatores. “O excesso de é um ótimo indicativo de risco, mas não é capaz de fornecer, isoladamente, um diagnóstico”, disse a VEJA o médico Michael Stumvoll, especialista em diabetes e professor da Universidade de Leipzig, na Alemanha. “Para isso, é necessária uma mais detalhada, que inclui outros indicadores de risco.”

Até bem pouco tempo atrás, acreditava-se que o tecido adiposo era um simples depósito de gordura. Apenas em meados dos anos 90 se descobriu que ele produz mais de uma centena de substâncias, inclusive hormônios.

A é mais perniciosa por várias razões. A primeira delas é que as células do tecido adiposo visceral são pouco eficazes em reter gordura dentro delas. Próximas demais de órgãos importantes da cavidade abdonimal, ao liberar moléculas de gordura, elas afetam o funcionamento do pâncreas, do fígado, dos rins etc.

Com a atividade prejudicada, esses órgãos acabam por comprometer também a cardiovascular. Some-se a isso o fato de a produzir uma série de compostos – todos prejudiciais ao organismo.

Direta ou indiretamente, eles aumentam a quantidade de açúcar no sangue, impedem a ação do hormônio insulina – o que pode deflagrar o diabetes – e deixam as paredes das artérias mais frágeis, facilitando a ocorrência de infartos e derrames. A diferença em relação às células adiposas da gordura subcutânea é que estas últimas funcionam como uma garagem para as moléculas de gordura, evitando que ela se deposite em órgãos vitais.

“Isso não representa uma carta de alforria para os gordos-pêra”, diz o endocrinologista Alfredo Halpern, professor da Universidade de . “A obesidade, seja ela qual for, sempre oferecerá riscos, como insuficiência cardíaca e problemas de coluna e articulações, entre outros.”

A avaliação precisa do acúmulo de só é possível com exames de tomografia computadorizada. Os custos, porém, são proibitivos para um rastreamento populacional.

Por isso, os pesquisadores precisaram recorrer a uma opção mais simples e barata. Por meio de estudos epidemiológicos, eles chegaram a medidas de circunferência da cintura que servem de parâmetro para verificar se uma pessoa está ou não sob ameaça da .

O valor máximo varia de acordo com a etnia. Na América Latina, os valores de referência são 80 centímetros para as mulheres e 94 para os homens. Outra forma de avaliar a é através da relação matemática entre cintura e quadris. Ela deve estar abaixo de 0,85 nas mulheres e de 0,90 nos homens.

Apesar de todos os avanços nos conhecimentos sobre gordura corporal e da promessa do remédio rimonabant, ainda não se descobriu a pí da cintura fina.

Quem pensa em recorrer à lipoaspiração para se livrar dos riscos impostos pela barriguinha, é melhor esquecer. Pode funcionar do ponto de vista estético. Para a , não faz a menor diferença.

Apesar de a lipo reduzir a circunferência da cintura, a operação não elimina a – como ela é muito entranhada na cavidade abdominal, a cânula usada nessas cirurgias não é capaz de aspirá-la. A única forma de reduzir a quantidade de por meio do bisturi seria uma cirurgia de grande porte, extremamente agressiva e arriscada.

Não tem jeito. Para conseguir uma cinturinha de pilão que também seja sinônimo de , é preciso seguir a velha e boa cartilha dos hábitos de vida saudáveis – e torcer para que o novo remédio cumpra suas promessas e, um dia, possa ser prescrito a todo .

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